21 julho 2008

Transeuntes do tempo

Os velhos são transeuntes do tempo.
Alguns passam por nós abraçando o que resta da sua alegria, tentando seguir tempos demasiados modernos, demasiados rápidos e frenéticos. Fazem-no com à vontade, acompanhados de uma sabedoria própria, de uma bagagem única, conhecimentos de quem já viveu tudo, mais do que uma vez. Contam histórias aos netos como se fossem contos de fadas distantes, aconselham-nos a usar uma máquina que já não existe, e perguntam onde é que é a auto-estrada da informação e se tem portagens. Riem-se das anedotas sobre o Samora Machel, recordam com melancolia os tempos em que iam ao baile, vestidos de gala e onde conheceram a Avó. Saiem de casa para apanhar ar, ver coisas novas, ouvir o mundo e vão para o jardim onde se sentam no banco do costume para reencontrar os amigos, cada vez mais escassos, e contar as malandrices dos netos e o sorriso dos filhos.
Outros, por outro lado, deixam-se ir à medida que o seu próprio tempo se esvai. Fecham-se dentro de si, como conchas à beira-mar, esse mar que já não cheiram, essa vida que já não sentem. Andam amargurados a bater nos carros que não param nas passadeiras ou a riscar aqueles que estão em cima dos passeios. Curvados para o chão, agarrados à bolsa preta com os documentos que lhes restam, prova de uma vida que ainda é, e balbuciam umas palavras ao vento, para quem as queira agarrar, à desgarrada. Velhos chatos, velhos demasiado velhos. Velhos cuja velhice lhes corre pelas veias e o tempo lhes alimenta a alma, esse tempo que antes não tinham e que agora têm em demasia. Passam vergados pela força da sua própria maldade, velhos inconformados confinados a um espaço demasiado grande. Saiem de casa porque já ninguém os atura, nem mesmo eles próprios e vão para o jardim onde se sentam no banco do costume para reencontrar os conhecidos, cada vez mais escassos, e contar o desinteresse dos filhos e as dores dos rins.
Os velhos são transeuntes do tempo.
Passam por nós com aquele cheiro a água-de-colónia ou a naftalina, esse cheiro que claramente nos indica se continuam virados para a vida ou se lentamente se inclinam para a morte.

7 Comments:

Blogger ME said...

tempo?! a sua essência é passar...

16:58  
Blogger G! said...

sim, mas aproveitá-lo também

18:54  
Blogger Humor Negro said...

que f*** da p*+# de texto bom! um dos teus melhores desabafos G.

20:35  
Blogger G! said...

:-)
Thanks

09:43  
Anonymous Anónimo said...

muito bom mesmo!!! escreves bem!!!
Carlota

19:50  
Blogger Bluedog said...

"Em África, quando morre um velho é uma biblioteca que arde"

Léopold Senghor, grande poeta africano, membro da Academia Francesa, ex-Presidente do Senegal

P.S:Muito bom o teu texto, lido em Brasília ou na estrada para Jerusalém

22:07  
Blogger G! said...

Em Árica, quando arde uma biblioteca, morrem muitos velhos também

11:44  

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